Apresentação

Bem-vindo ao espaço virtual do ESMER !

O Grupo de Pesquisa “Ensino, sociedade e meritocracia” (ESMER), foi criado em 2024 a partir de alguns estudos e reflexões realizadas por nós, Evandro Guindani e Yáscara Koga juntamente com nossos bolsistas e orientandos(as) em mais de 25 anos de experiência docente na educação básica e superior.

Entendemos que o estudante deve ser o elemento central de toda a instituição de ensino. E este estudante é um sujeito que possui uma identidade construída dentro de um contexto de múltiplas determinações. Cada estudante leva para a sala de aula um resumo do seu contexto cultural, familiar, social, econômico…

As relações do estudante com o currículo, as práticas de ensino e com o conhecimento científico são mediadas por elementos por ele apropriados desse determinado contexto onde vive.

Vivemos na história da educação diversos momentos marcados por concepções pedagógicas, ora mais tradicionais, conservadoras, ora mais liberais e progressistas. Podemos ousar dizer que a meritocracia[1] é um elemento, que de maneira mais ou menos enfática, se faz presente em todas essas concepções pedagógicas. Principalmente no que tange à avaliação, é muito difícil presenciarmos instituições de ensino que conseguem fugir do critério meritocrático. E uma das grandes limitações da meritocracia é a sua fragilidade quanto à validação dos determinantes externos da aprendizagem individual.

Numa perspectiva meritocrática, aplicar uma única prova a uma turma de 30 estudantes, é algo considerado justo, pelo simples motivo de se acreditar na ideia de que todos estão nas mesmas condições de aprendizagem e na mesma linha de partida. Diante disso, o resultado será fruto do empenho de cada um. Simples assim? Dubet (2008), ao discutir a relação entre meritocracia e justiça, considera que em todos os países, as crianças mais privilegiadas economicamente e munidas de maior capital cultural, apresentam um rendimento escolar melhor, estudam por mais tempo e acessam carreiras com melhor remuneração. Para o autor, a escola não conseguiu neutralizar os efeitos das desigualdades culturais e sociais sobre as desigualdades escolares. Para o autor, as desigualdades sociais geram desigualdades escolares, independente da igualdade de oportunidades. Ou seja, mesmo todos os estudantes tendo recebido a mesma prova e tendo o mesmo tempo para responde-la, não garante que todos tenham as mesmas condições de alcançar um bom resultado. Lahire (2004) nos apresenta a sua teoria das configurações familiares quando analisa na França, a relação entre o sucesso escolar e o contexto cultural e social de cada estudante proveniente de uma família da camada popular. O autor vai nos demonstrar como a apropriação de capital cultural, da cultura escrita por cada estudante da camada popular foi um fator determinante para seu rendimento escolar.

Principalmente para crianças da camada popular, a escola, por meio de seus professores e equipe diretiva, compõe um espaço muito distante de seu contexto cultural e social. De acordo com Bernstein (1986) a linguagem dos professores, sua vestimenta, seus carros, seu local de moradia, seus filhos, muitas vezes estudando na escola privada, são elementos que se tornam estranhos ao universo do estudante da periferia, pobre, preto ou pertencente a uma cultura segregada como o caso de muitas comunidades migrantes que chegaram ao Brasil nos últimos anos.

Diante disso o ESMER pretende ser um Grupo de pesquisa que possa contribuir na problematização da meritocracia em relação ao ensino e a mobilidade social de jovens e adolescentes, principalmente provenientes da camada popular. Ao refletirmos acerca da relação entre a educação e a realidade socioeconômica, não podemos deixar de considerar a afirmação de Mészáros (2005, p.25) quando afirma que: “os processos educacionais e os processos sociais mais abrangentes de reprodução estão intimamente ligados”, ou seja, a sociedade e instituições de ensino se relacionam e se influenciam de forma complexa e dinâmica.

Este grupo de pesquisa surge em decorrência de pesquisas já realizadas pelos autores Guindani et al (2019) e Guindani & Guindani (2020), onde se evidenciou uma relação direta entre contexto socioeconômico e rendimento escolar. As pesquisas se debruçaram sobre indicadores de escolas públicas municipais da cidade de São Borja-RS, um município fronteiriço como Bagé-RS. Uma outra produção bibliográfica dos autores Guindani & Koga (2022) refletem criticamente sobre a relação entre meritocracia e mobilidade social e pode dar suporte para a problematização dos referidos indicadores educacionais a serem analisados nesta pesquisa.

A pesquisa realizada por Lopes; Xavier e Silva (2020) teve por objetivo analisar a diferença de rendimento escolar entre alunos que residem na área rural e urbana de uma escola pública do Piauí. Os resultados da referida pesquisa apontam que existe uma desigualdade entre o rendimento de alunos que moram na área rural e na área urbana. Tal desigualdade, segundo os autores, pode estar relacionada à escolaridade dos pais e, consequentemente, à dificuldade de acompanhamento das atividades escolares dos filhos; a renda da família; o ensino multisseriado nas escolas da área rural e a distância escola-residência.

Diante do exposto, o ESMER pretende produzir pesquisas que contribuam para compreendermos de que forma os grandes desafios das instituições de ensino, principalmente das escolas públicas, se encontram fora delas, ou seja, dependem de políticas públicas que promovam a distribuição de renda e amenizem a desigualdade de oportunidades.

[1] O referido conceito de meritocracia aqui utilizado está baseado na obra de Dubet (2008); Sandel (2020) e Koga (2013)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERNSTEIN, B. Estrutura social, linguagem e aprendizagem. In: PATTO, M. H. S. (org.). Introdução à psicologia escolar. São Paulo: T. A. Queiroz, 1986. p. 129-151.

BRASIL. MEC. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. INEP. Resultados Ideb. 2023. Disponivel em: https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/pesquisas-estatisticas-e-indicadores/ideb/resultados. Acesso em 30mai2023

DUBET, F. O que é uma escola justa? A escola das oportunidades. São Paulo: Cortez, 2008

GUINDANI, Evandro R.; GUINDANI, Yáscara M. N. K.; SCHNEIDER, Maiquel. J. As políticas educacionais e o rendimento escolar: um estudo de caso numa escola municipal de São Borja-RS. Revista da Faculdade de Educação, [s. l.], v. 26, n. 2, p. 79-99, 2019. Disponível em: https://periodicos.unemat.br/index.php/ppgedu/article/view/3931. Acesso em: 22 out. 2021.

GUINDANI, Evandro R; GUINDANI, Yáscara. A rede pública municipal de educação: análise de Indicadores Educacionais no município de São Borja-RS. In: COLVERO, R; JOVINO, D; PANIAGUA,E. Relações de Fronteira e Interdisciplinaridades 4. São Borja-RS. Universidade Federal do Pampa. Unipampa: Assis: Triunfal Gráfica e Editora, 2020

GUINDANI, Evandro; KOGA, Yáscara. O novo sucesso: uma crítica à meritocracia. Curitiba-PR: Appris Editora. 2022

KOGA, Yáscara. Meritocracia e docência: um objeto multifacetado. TESE (Doutorado em Educação: História, Política, Sociedade). Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História, Política, Sociedade. Pontifícia Universidade Católica – PUC/SP. São Paulo – SP. 237p. 2013.

LAHIRE, Bernard. Sucesso escolar nos meios populares: as razões do improvável. São Paulo: Ática. 2004

LOPES, S. G.; XAVIER, I. M. DE C.; SILVA, A. L. DOS S.. Rendimento escolar: um estudo comparativo entre alunos da área urbana e da área rural em uma escola pública do Piauí. Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação, v. 28, n. 109, p. 962–981, out. 202

MÉSZÁROS, I. A Educação para além do capital. São Paulo: Boitempo. 2005

SANDEL, Michael. A tirania do mérito: o que aconteceu com o bem comum? Tradução Bhuvi Libanio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2020