Quando a fé vira alvo: Neabi cria espaço de diálogo contra o racismo religioso.

Unipampa recebe delegado da Divisão de Combate à Intolerância para debate sobre racismo religioso. Evento promovido pelo NEABI Lanceiros Negros reuniu comunidade acadêmica e externa em uma noite de diálogo sobre justiça, fé e educação antirracista.

O auditório do Prédio I da Unipampa, no campus São Borja, tornou-se um espaço de convergência entre a lei e a fé na noite do último dia 18 de novembro. Como parte da programação do Mês da Consciência Negra, o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (NEABI) Lanceiros Negros promoveu a palestra “Quando a fé vira alvo: o Estado e o combate ao racismo religioso”, conduzida pelo delegado Vinicius Nahan dos Santos, especialista da Divisão de Combate à Intolerância de Porto Alegre.

Mais do que uma exposição jurídica, o encontro propôs uma reflexão crítica sobre como o preconceito contra religiões de matriz africana se materializa no cotidiano e como as instituições devem agir. Nahan apresentou dados e registros históricos, diferenciando a liberdade de expressão de crimes de ódio, e detalhou como a injúria e a depredação de espaços sagrados são tipificadas e investigadas pela polícia.

A relevância da pauta refletiu-se na expressiva mobilização do público. Estima-se que circularam pelo evento entre 118 e 122 pessoas, em um fluxo que rompeu os muros da universidade. A plateia foi composta por uma mescla significativa de estudantes, servidores e, fundamentalmente, membros da comunidade externa de São Borja e região. Essa integração reafirmou a função social da Unipampa como um polo de debate para questões urgentes da sociedade.

A noite também foi marcada pela pluralidade de vozes e pela defesa da educação como ferramenta de transformação. Um dos pontos altos foi a intervenção de Pai Everton Maninho. O líder religioso foi enfático ao argumentar que a punição legal, embora necessária, não é suficiente se não houver uma base educacional sólida que desconstrua estigmas. “Enquanto não tivermos uma educação que fale sobre cultura afro, que fale sobre religião de matriz africana e suas descendências […], nós vamos ter esta dificuldade”, pontuou Pai Everton. Ele cobrou, de forma direta, que as leis educacionais sejam efetivamente aplicadas dentro dos educandários  sejam eles municipais, estaduais ou a própria universidade, para que o respeito seja ensinado antes que a intolerância se manifeste.

O evento encerrou-se com um sentimento de fortalecimento coletivo, deixando claro que a luta contra o racismo religioso exige um esforço conjunto de um lado, um Estado atuante e firme na aplicação da lei; do outro, uma comunidade escolar comprometida em ensinar a história e a cultura que formam a identidade do nosso povo.