Apresentação da 11ª Edição

Olá!!!! Chegamos à 11ª edição do CiênciAção. Convidamos a comunidade acadêmica e externa das dez cidades de abrangência da Universidade Federal do Pampa a ler, ver e compartilhar um pouco da produção científica e tecnológica  produzida na nossa região.

No observatório de divulgação científica temos duas contribuições. Uma produzida pelo Núcleo de Estudos em Agroecologia do Pampa (Nea-Pampa), não sabe do que se trata? O Nea- Pampa é uma iniciativa interdisciplinar que reúne docentes e discentes dos campus São Borja, Itaqui e São Gabriel, no texto você fica sabendo um pouco mais sobre o núcleo, objetivos e equipe executora. A outra colaboração é um relato de pesquisa sobre os Hábitos de estudos de graduandos em Ciência da Computação e Engenharia de Software: uma análise no período de pandemia, na seção informativo.

Na seção Artigo de Opinião o olhar volta-se para os profissionais de saúde, a questão que orienta o texto é “quem cuida de quem cuida de nós? Já o Anime seu conceito é um vídeo produzido pelo Núcleo de Pesquisa, Ensino e Extensão em Doenças Infectocontagiosas (NUPEEDIC) que esclarece as diferenças entre os vários tipos de testes para detectar a COVID19. Ainda no tema pandemia, a reportagem do mês foi desenvolvida no Projeto de Ensino I4 Plataforma de Notícias- Agência Experimental de Jornalismo. Trata-se da apresentação de dados iniciais sobre um estudo desenvolvido no Brasil que investiga as sequelas a longo prazo da COVID19. 

Na seção Blog e Colunista temos a contribuição da comunidade externa que vem de um pesquisador, professor e servidor  da Secretaria Municipal de Educação de São Borja, que escreveu o texto Necropolítica: quem decide que vidas são vivivéis e que vidas são matáveis? Uma reflexão fundamental para o momento que estamos vivendo em que milhares de brasileiros morrem em consequência de decisões políticas sobre a gestão da pandemia da COVID19. Já na seção Artigo de Opinião temos a colaboração da  comunidade que é de um advogado de Itaqui que propõe pensarmos sobre a seguinte questão: No que diz respeito a uma proposta de nação, falhamos? Vale conferir e elaborar possíveis respostas.   

O lançamento do livro “Chama da tradição: Itaqui, um berço do tradicionalismo”, de Márcio Escalante de Barros, lançado este mês, é o tema da seção Artes e Cultura. O convite à leitura traz duas indicações: a primeira é a História em Quadrinhos “Assassinos na casa“, de Fábio Vermelho, e o livro já apontado como novo clássico da literatura brasileira, Torto Arado, de Itamar Vieira Junior. 

A chamada do Grupo de Estudos Gênero e Sexualidade para novos membros interessados na temática está no CiênciAção Mulheres. Por fim, o Professor nota 10 desta edição é Sidnei Bohn Gass que nos apresenta sua trajetória acadêmica. A entrevista com o Professor nota 10 está também disponível em vídeo no YouTube do CiênciAção. Já a seção Meu trabalho nota 10 traz a experiência da egressa do curso em Produção e Política Cultural pela Universidade Federal do Pampa, Karine Brizola. O Aluno Destaque desta 11ª edição é  Dieison Morozoli da Silva, egresso do BICT/Unipampa e mestrando em geografia na UFRGS.

A equipe do CiênciAção deseja uma boa leitura!!!!

E se você quer colaborar com o CiênciAção envie um email para contatoeditores@gmail.com.

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NEA Unipampa espalha agroecologia na fronteira gaúcha

NÚCLEO DE ESTUDO EM AGROECOLOGIA E PRODUÇÃO ORGÂNICA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PAMPA (NEA-PAMPA)

Por Merli Leal Silva

“É importante tentar introduzir a agricultura em muitas áreas da universidade, não só na agronomia. O sistema total agroalimentar engloba diversas dimensões — saúde, psicologia, sociologia, ciências políticas. Nossa luta dentro da universidade envolve um esforço dentro de muitas áreas “Hugh Lacey

O NEA-PAMPA (Núcleo de Estudos em Agroecologia e Produção Orgânica da Universidade Federal do Pampa) ampliou a possibilidade de formação continuada na região de abrangência da UNIPAMPA junto a agricultores e demais instituições voltadas ao desafio da transição agroecológica, constituindo-se em um espaço interinstitucional de referência para a troca entre o conhecimento científico e o tradicional. As linhas de atuação do Núcleo são interdisciplinares: 

-Agricultura Familiar e Assentamentos de reforma agrária;
-Sustentabilidade e Meio Ambiente;
-Educomunicação e Novas tecnologias;
-Educação do campo;
-Economia Solidária e Produção colaborativa;
-Gestão ambiental;

O Núcleo promove ações indutoras da transição agroecológica, da produção orgânica e de desenvolvimento dos conhecimentos da Agroecologia, possibilitando à população da mesorregião da campanha gaúcha a melhoria de qualidade de vida por meio da troca de saberes e tecnologias para oferta e consumo de alimentos saudáveis e da preservação do meio ambiente. A agroecologia é mais que um modo de produção, ela é ciência! Contudo, ela é frequentemente deslegitimada por basear-se no saber popular e por desenvolver-se como contraponto ao agronegócio. A agroecologia como ciência faz oposição ao modelo agrícola convencional, marcado por baixa geração de emprego em função da mecanização; esgotamento do solo pela monocultura; exploração dos trabalhadores rurais; uso de agrotóxicos e transgênicos; e por uma produção dirigida a um mercado sob controle de corporações e multinacionais. O Núcleo de Estudos em Agroecologia e Produção Orgânica da Unipampa nascido em 2020, foi idealizado por uma equipe multidisciplinar, integrada por três campi: São Borja, São Gabriel e Itaqui.São docentes e discentes das áreas das ciências sociais aplicadas, ciências agrárias, ciências biológicas e ciências humanas. 

O NEA tem suas raízes no projeto de extensão Comunicação e Educação do Campo, do campus São Borja (2012). O projeto se constituiu em ações de extensão e pesquisa em agroecologia e gestão produtiva, com agricultoras familiares de São Borja. Uma das atividades mais conhecidas do projeto é a feira do campus, onde agricultoras do interior do município vendem produtos como legumes e hortaliças, assessoradas pelo NEA para ações de marketing e redes sociais, visando divulgar e vender a produção. 

Nossa missão volta-se assim, para a produção de conhecimentos científicos que fomentem o desenvolvimento e a expansão da agroecologia como prática social, inclusiva e de proteção à saúde das pessoas. Entre as tantas missões da agroecologia, podemos citar a preservação da biodiversidade; respeito aos direitos humanos; segurança alimentar; relações igualitárias, justas e sem violência; e empoderamento das comunidades locais, em especial, as mulheres. Investigamos as diferentes dimensões da agroecologia e fomentamos estudos científicos que contribuem para a mudança gradual no modo de produção na fronteira, através da transição orgânica. As ações educomunicativas são essenciais para informar e educar a população sobre os perigos de consumir alimentos contaminados por agrotóxicos. O aporte dos laboratórios dos cursos de São Gabriel e Itaqui e de produção audiovisual de São Borja tem sido grande diferencial para a concretização das ações do núcleo e sua divulgação. 

A metodologia freireana e a pesquisa ação são a base epistemológica do núcleo e contribuem para a construção do diagnóstico participativo junto às escolas do campo e agricultoras familiares. O NEA desenvolve ações voltadas à melhoria das condições ambientais, sociais e técnico-econômicas do meio rural nos municípios de São Borja, São Gabriel e Itaqui. Em 2020 o NEA recebeu recurso do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) que foi empregado na compra de insumos para as hortas, equipamentos, deslocamentos para avaliação técnica e pagamento de quatro bolsas: duas em São Borja, uma em Itaqui e uma em São Gabriel. Há parceria técnica com o prof. Dr. Denirio Marques, do Campus Viamão, do Instituto Federal RS e com a técnica Maria de Fátima Nora Lopes, para a gestão financeira do projeto.

Entre as atividades desenvolvidas pelo NEA, destacamos a formação em agroecologia, implantação de hortas com agricultores familiares, aprimoramento das feiras livres com ações de marketing e educomunicaçao. As práticas agroecológicas são realizadas nas unidades de produção dos assentamentos e agricultoras familiares. Infelizmente devido à pandemia, tivemos em 2020 e 2021, trabalho, em sua maioria, de forma remota. A implantação da agroecologia na região da fronteira é um grande desafio. A economia local é, em sua maioria, voltada ao agronegócio. 

Coordenar um projeto de agroecologia não sendo da área das agrárias e sendo mulher, foi um grande desafio, mas nos fez entender que a agroecologia é uma ciência multidisciplinar, nascida da troca de saberes com as comunidades tradicionais. Para superar dificuldades, criamos laços com a comunidade e fomentamos a parceria técnica: Emater, prefeituras, CNPq, comunidade e universidade. O trabalho formativo é realizado, devido a pandemia da COVID19, nas plataformas digitais, utilizando a abordagem educomunicativa em lives, webnários, cartilhas, mini cursos e capacitação para plantio orgânico e uso das redes sociais para venda de produtos agroecologicos. A consultoria direta aos consumidores e produtores é feita através das redes digitais do NEA (Facebook, Instagram, Spotify, YouTube)  e por visitas in loco. 

A coordenação geral do NEA-PAMPA é feita pela Professora Dra Merli Leal Silva, São Borja; a coordenação do Núcleo São Gabriel, Prof. Dr. Andre Copetti e do Núcleo Itaqui, Prof. Dr. Paulo Roberto Cardoso da Silveira. A institucionalização do NEA Unipampa é o maior desafio até 2022, quando a atual coordenação entrega o relatório final do projeto ao CNPQ. O projeto é da UNIPAMPA e toda a comunidade acadêmica deve assegurar sua continuidade, pós implantação.

Referências Bibliográficas:
ALTIERI, M. A.; SILVA, E.N.; NICHOLLS, C.I. O Papel da biodiversidade no manejo de pragas. Holos editora. 2000;
ALTIERI, M. A. Agroecologia: as bases científicas da agricultura alternativa. PTA/FASE. Rio de Janeiro. 1989. 240 pp.;
ALTIERI, M.A. Agroecologia bases científicas para uma agricultura sustentável. Guaíba: AS-PTA/Agropecuária, 2002. 592p.;
ALTIERI, M.A. Agroecologia: a dinâmica produtiva da agricultura sustentável. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 1998. 110p. (Síntese Universitária, 54).;
EHLERS, E. Agricultura sustentável. Origens e perspectivas de um novo paradigma. Livros da Terra. 1996;
GLIESSAMN, S. Ecological processes in sustainable agricultura. AnnHarbour Press.1998. 357 pp.;
GLIESSMAN, Stephen R. Agroecologia: processos ecológicos em agricultura sustentável. Porto Alegre: Editora da Universidade-UFRGS, 2000; 
Freire, Paulo. Extensão ou comunicação? Tradução de Rosisca Darcy de Oliveira. Prefácio de Jacques Chonchol 7a ed.Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1983. 93 p. (O Mundo, hoje, v. 24)
GAIA, Rossana Viana. Educomunicação & mídias. São Paulo: EDUFAL, 2001.

Publicações do Nea

Agricultura familiar: Educomunicação e protagonismo feminino 
Carla Beatriz de David Ernesto
Merli Leal Silva 

EDUCOMUNICAÇÃO: Compreendendo a teoria para transformar a prática
Carla Beatriz de David Ernesto
Merli Leal Silva 

Agricultura familiar: Educomunicação e protagonismo feminino
Carla Beatriz de David Ernesto
Merli Leal Silva 

Pedagogia freireana na perspectiva da educomunicação popular
Merli Leal Silva 

A Cultura Popular como conteúdo na escola do Campo
Merli Leal Silva
Daniele Kunzler Lara Cezar

Educomunicação popular e agricultura familiar pelos campos de São Borja 
Merli Leal Silva
Luiz Gabriel Stroff

Material Criado para agricultora de São Gabriel
Material criado para agricultora de São Paulo

 

 

 

 

 

 

 

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Hábitos de estudos de graduandos em Ciência da Computação e Engenharia de Software: uma análise no período de pandemia

Flávia A. Barbosa, Ícaro M. Crespo, Lucas A. G. Garais, Andréa S. Bordin

O ano de 2020 trouxe uma mudança brusca em diversos segmentos da sociedade em virtude da pandemia do vírus Sars-CoV-2 (Síndrome Respiratória Aguda Grave) [BRASIL 2020b]. Como forma de prevenção à pandemia foram aplicadas medidas de isolamento e distanciamento social, como a suspensão de aulas presenciais nos diferentes níveis educacionais. Como alternativas, muitas instituições de ensino propuseram ações para a manutenção do vínculo proporcionado pelo ensino da universidade. Na Unipampa, destaca-se o I Ciclo Online de Palestras dos cursos de Ciência da Computação (CC) e Engenharia de Software (ES).

A análise da avaliação do ciclo realizada com alunos dos cursos de CC e ES, no ano de 2020, revelou que parte dos alunos dedicava pouco tempo às atividades de estudo, assim como apresentava um quadro de desânimo à situação de isolamento. No entanto, outra parte manifestava que estava em atividade buscando estudar assuntos da área de Computação.

Entendeu-se, portanto, que era necessário compreender esse cenário, junto a um maior número de discentes de CC e ES. Para isso foi realizada uma pesquisa com o objetivo de analisar os hábitos de estudos e envolvimento em atividades acadêmicas dos alunos dos cursos de Ciência da Computação e Engenharia de Software da Unipampa – Campus Alegrete, durante a pandemia. A pesquisa foi realizada por meio de um survey com questões demográficas, de infraestrutura e de hábitos de estudos.

O instrumento de coleta de dados constituiu-se em 18 questões subdivididas em 5 grupos, sendo eles: questões relacionadas à identificação, questões relacionadas à infraestrutura necessária ao estudo/pesquisa, questões relacionadas a hábitos de estudos, questões relacionadas às fontes de consultas e questões relacionadas às atividades acadêmicas. O formulário foi enviado para todos os 348 matriculados nos dois cursos e foram obtidas 81 respostas.

A análise das respostas indicou que em relação à infraestrutura havia um cenário de acessibilidade positiva de ambos os cursos. Os dados mostraram que houve uma diminuição do nível de envolvimento em atividades de estudo entre os alunos de CC, o que pode estar relacionado com a falta de aulas presenciais, apontado como influência negativa pelos próprios. Já entre os alunos de ES, o nível de envolvimento aumentou, o que, como mencionado por eles, pode ter sido influenciado pela flexibilidade de tempo.

Esse cenário caracteriza alunos com perfis diferentes e pode estar relacionado à metodologia de ensino empregada nos cursos. O curso de CC é conduzido através de metodologia de ensino tradicional, onde os componentes curriculares são ministrados de uma forma essencialmente expositiva. Já no curso de ES é adotada a metodologia ativa de Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP) com uma carga horária significativa, na qual os alunos são desafiados a resolver problemas, sendo estimulados a aprender de forma autodidata. Dessa forma, alunos de CC podem se sentir menos motivados a estudar de forma autônoma, sentindo falta das aulas presenciais, ao contrário dos alunos de ES, que, em função da Aprendizagem Baseada em Problemas, se sintam mais confortáveis em fazê-lo. 

Os fatores flexibilidade de tempo e liberdade de escolha dos assuntos, foram elencados por ambos os cursos, como os que mais influenciaram positivamente o seu envolvimento. Também, a infraestrutura da casa e a proximidade com a família foram mais apontados pelos discentes de Ciência da Computação, com um significativo percentual de diferença em relação aos de ES. Em relação a assuntos estudados pelos respondentes de CC, predominam aqueles associados a linguagens de programação científicas, como C++, C, Lua, Python. Por outro lado, na Engenharia de Software a área de desenvolvimento de software e os assuntos relacionados a essa área, como as linguagens para desenvolvimento de aplicações web e apps, teve um expressivo destaque. Destaca-se que uma grande adesão a meios eletrônicos para consulta foi vista nos dados, como Youtube e plataformas de cursos online.

As evidências indicam que alunos de Ciência da Computação e Engenharia de Software, apesar de serem da área de Computação, se comportam de forma diferente durante a pandemia, no que diz respeito aos hábitos de estudos e envolvimento em atividades acadêmicas. Alunos de ES tiveram maior participação na pesquisa e demonstraram ter uma postura mais ativa que parece estar relacionada à metodologia Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP). Os resultados desta pesquisa podem ser utilizados para o planejamento de atividades de ensino remoto, assim como auxiliar na gestão curricular dos cursos em questão. 

Este estudo foi apresentado na Escola Regional de Engenharia de Software (ERES) 2020. A versão completa pode ser consultada nos anais do evento, em: https://doi.org/10.5753/eres.2020.13718.

Referências

BRASIL,M.d.S.(2020b). Sobre a doença. Disponível em: https://coronavirus.saude.gov.br/sobre-a-doenca. Acessado em 13 de ago. de 2020.

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A SAÚDE MENTAL DOS HERÓIS DA LINHA DE FRENTE NO COMBATE AO COVID 19

Por Graciéle Pereira Souza

A Covid19 chegou fazendo o mundo parar literalmente, olhar para si e para aqueles mais frágeis parece fundamental nesses tempos pandêmicos. O vírus foi identificado na China no final de 2019 e se espalhou pelo mundo, seu contágio é assustadoramente rápido e de alta letalidade, sem remédios ou vacinas até o final de 2020, afetando principalmente os idosos, pessoas com doenças crônicas como hipertensão, diabetes, cardiopatias,      imunossuprimidos. Cabe-nos adaptarmos a essas mudanças na rotina, conviver com as incertezas. 

Os impactos psicológicos mentais dos trabalhadores da saúde, que todos os dias deixam de cuidar das suas famílias para cuidar dos entes queridos de outras famílias, sejam mães, pais, tios, primos, avós etc. é notório. Pelo fato de não terem opção, devido ao decreto da Pandemia da      Covid 19, os profissionais da saúde ficam impossibilitados de tirar folgas, e gozarem suas férias, neste cenário somente aqueles que possuem doenças crônicas, mediante atestado médico são dispensados. 

Mas, se esses “heróis” pudessem escolher, certamente estariam nos seus lares vivenciando o “distanciamento social”, cuidando-se com a higienização que até o presente momento são formas para conter o contágio da Covid19. O medo de ser infectado, infectar terceiros, suas famílias – quer mais precioso do que a vida dos nossos – seguido da falta de suprimentos medicamentosos e equipamentos de proteção individual (EPIs) para trabalhar deixa os desconfortáveis, vulneráveis ao contágio, inseguros. 

Pânico? Sim, pânico! Disseminado por alguns profissionais, deixando a equipe mais vulnerável, tornando o ambiente de trabalho inseguro e hostil; afetando o convívio e intensificando as emoções negativas. Sentimento de impotência diante dos fatos, da crise generalizada, que nos ronda, beirando o caos da saúde pública, acentuado ainda pelas notícias     veiculadas  na mídia em grande escala. 

Certamente manter-se atualizado com os acontecimentos se faz necessário, no entanto, assistir e escutar os noticiários manhã, tarde e noite, vivenciar esses acontecimentos 24 horas, certamente não é saudável, os sentimentos negativos minam a cabeça de qualquer pessoa por mais forte que esta seja.

O profissional da saúde quando possui informação clara, precisa e organizada, protocolos que são de fato executados pelo gestor, sente-se mais confortável      psicologicamente para se cuidar e cuidar daqueles que dependem de seu trabalho. Amparados sabem como atuar mesmo no “olho do furação”. 

Carinhosamente chamados de “heróis da saúde”, aplaudidos nas janelas e sacadas das casas e apartamentos em várias cidades, esse reconhecimento ameniza, porém, não afasta os sentimentos negativos de medo, ansiedade e stress, vivido cotidianamente, pelos profissionais, diante do novo vírus tão pequeno, mas, que causa prejuízo à saúde mental em longo prazo, como visto em outras epidemias/pandemias.     

Heróis que inúmeras vezes informam, explicam, pedem, suplicam a sociedade que os ajude a ajudar aqueles que mais precisam de seus cuidados. E qual a resposta da sociedade? minimizam e colocam em xeque as recomendações desses profissionais, causando uma sensação de ineficácia, de dever não cumprido. 

Viralizaram nas mídias a frase: “Fique em casa nós estamos aqui por você!”. Estudos mostram que os profissionais que atuam em desastres, surtos, epidemias, pandemias onde o medo torna se excessivo ocasiona      quadros de ansiedade, depressão, perda apetite, perda da qualidade do sono, aumento no uso de drogas lícitas e ilícitas entre outros distúrbios das formas mais leves às mais severas, pesquisas demonstram que as mulheres são atingidas severamente quando se trata da saúde mental.

Para não perder o foco e manter-se forte diante dessa situação nova amedrontadora para muitos, algumas recomendações dos órgãos de saúde são: 

  • Manter a rotina;
  • Alimentação saudável; 
  • Atividade física regularmente; 
  • Ler livro; 
  • Procurar ajuda nos colegas e familiares;
  •  Meditar, através das diversas técnicas terapêuticas mandala, yoga;
  • Aprender idioma; 
  • Fazer atividades manuais, pintura, tricô, crochê etc. 

 Concluiu-se que será necessário cuidar da saúde mental da população em geral e termos um cuidado redobrado com os “heróis da linha de frente”, pois, esses transtornos psicológicos demandará de políticas públicas no âmbito do SUS para saúde mental, e que as práticas integrativas da saúde torne-se realidade em todas as unidades de saúde do Brasil, no intuito de sanar essa dívida moral com esses profissionais que arriscam suas vidas para cuidar daqueles que precisam de cuidados hoje, pois, essa doença não espera, pelo contrário evolui rapidamente. Cuidar de quem cuida, durante e pós-pandemia, cujos impactos não sabemos quais serão, apenas são estimados estatisticamente. Um campo a ser explorado através de pesquisas e estudos nas áreas sociais e saúde mental.

Graciéle Pereira Souza 
Graduada em Pedagogia-Licenciatura pela ULBRA. Especialista em Educação Especial e Inclusiva pela UNISANTA.
Graduanda do curso Bacharel Interdisciplinar em Ciências e Tecnologias da UNIPAMPA-Itaqui-RS.
 http://lattes.cnpq.br/0578594221593657

Referências:
https://www.researchgate.net/profile/Felix_Kessler2/publication/340442412_Pandemia_de_medo_e_COVID-19_impacto_na_saude_mental_e_possiveis_estrategias/links/5e893140299bf130797c84f4/Pandemia-de-medo-e-COVID-19-impacto-na-saude-mental-e-possiveis-estrategias.pdf
https://saude.gov.br/saude-de-a-z/praticas-integrativas-e-complementares 
https://701bbf93-7519-4b54-9d8d-fb3f4a37c06.filesusr.com/ugd/be5458_6a05890aac064b59a1983784b269a83b.pdf página 126.

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Coalizão COVID Brasil, um estudo sobre as sequelas do coronavírus

Por Tuãne Araújo.

Altas taxas de reinternações, doenças mentais e mortalidade de pacientes após meses de alta hospitalar são preocupantes

As sequelas a longo prazo que a COVID-19 pode deixar em pessoas infectadas preocupa todo o sistema de saúde. A corrida para a vacinação é a mesma para entender quais as consequências que a infecção do SarS-CoV-2 pode ocasionar pós recuperação. A Organização Mundial de Saúde (OMS) realizou, no dia 9 de fevereiro, uma reunião virtual para tentar desvendar, através de pesquisas e estudos, as complicações que o vírus está ocasionando a grande parte da população. A única pesquisa brasileira apresentada foi a Coalizão COVID Brasil, que começou com a parceria entre o Hospital Israelita Albert Einstein, HCor, Hospital Sírio Libanês, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, Hospital Moinhos de Vento (Porto Alegre) e Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva (BRICNet), que reúne médicos e pesquisadores de todas as regiões do Brasil,  junto com o Ministério da Saúde, para avaliar qual a eficácia e se há segurança nos medicamentos que estão sendo prescritos para os pacientes positivados com o novo coronavírus. Ao todo são nove estudos variados sobre o uso de medicamentos até ao uso de drogas antivirais para possíveis  tratamentos preventivos. A Coalizão VII avalia o impacto a longo prazo, após alta hospitalar, incluindo qualidade de vida de pacientes que tiveram COVID-19.

Médico foto criado pro freepik

Sintomas da COVID continuam após meses da infecção

Para Regis Goulart Rosa, médico intensivista e pesquisador do Hospital Moinhos de Vento, de Porto Alegre, e representante da Coalizão COVID Brasil, os sistemas de saúde devem se preparar para o tratamento intensivo de recuperação dos pacientes com Long Covid, um fenômeno que faz com que os infectados fiquem com sequelas a longo prazo. Os sintomas podem persistir dos casos leves aos mais graves, afetando coração, pulmões, rins e intestino. O projeto Coalizão VII ainda está em andamento e conta com a participação de mais de mil pessoas que já foram infectadas. Estas são monitoradas por ligações a cada três, seis, nove e 12 meses após a alta hospitalar.

Os pacientes têm em torno de 52 anos, sendo 60% homens. O tempo médio que estes pacientes precisaram ficar internados é de nove dias, e 1/4 precisou de ventilação mecânica. O levantamento repercute que 40% dos pacientes que estiveram na UTI precisaram ser internados mais uma vez para o tratamento de sequelas. As reclamações mais recorrentes são o cansaço e falta de ar, prejudicando a produtividade e a qualidade de vida. O estudo mostra que 20% dos entrevistados que precisaram da ajuda de aparelhos para respirar não voltaram ao trabalho seis meses após a saída do hospital. Dos que não precisaram de ventilação mecânica durante a infecção, apenas 5% retornaram ao emprego.

A Coalizão VII constatou que um a cada quatro pacientes que foram intubados na UTI morrem em até seis meses após alta hospitalar, em consequência de alguma complicação da doença. Os dados mostram que 46,3% das pessoas que precisaram de ventilação mecânica, 66,3% morreram. Aqueles que não precisaram do tratamento intensivo representam 9% no índice de mortalidade. A porcentagem não representa um problema no processo de intubação e, sim, a gravidade da sequela deixada após a infecção. A intubação feita de forma correta e no momento certo, o contrário que muitos pensam, salva vidas.

Infográfico: Tuãne Araújo

Outro número que chama atenção é o da mortalidade ser maior por pacientes que utilizaram o SUS (Sistema Único de Saúde), representando 49,4% das mortes, enquanto nos hospitais particulares é de 27,2%, no primeiro ano da pandemia. Isso ocorre porque aqueles que procuram o serviço público têm a possibilidade maior de ter comorbidades, além de enfrentar filas e falta de UTIs. A demora do serviço e atendimento aumenta a gravidade da COVID19. Nos pacientes que não precisaram de ventilação mecânica, o índice de morte entre os hospitais públicos e particulares é menor, sendo, respectivamente, 70,5% e 63,6%.

 Para além da saúde física

Além dos problemas cardiológicos, respiratórios, neurológicos e fraqueza muscular, o que também vem preocupando os médicos é a precariedade da saúde mental daqueles que precisaram ficar hospitalizados. O estresse pós-traumático, ansiedade e depressão são algumas doenças que os profissionais da saúde consideram como sequelas da infecção da COVID-19, independente da gravidade da doença. Os pacientes mais graves vêm apresentando a chamada “síndrome pós-UTI”, que acarreta a fraqueza muscular e redução da capacidade física. Os dados apontam que 52% dos pacientes pós-UTI têm sequelas mentais: 22% dos pacientes desenvolveram ansiedade, 19% depressão e 11% estresse pós-traumático. Os outros 48% pacientes que foram internados em UTI e acompanhados pelo estudo não reportaram sequelas mentais.

Infográfico: Tuãne Araújo

Um estudo brasileiro realizado pelo Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor/FMUSP) mostra que a COVID-19 pode também deixar problemas cognitivos. Perda de memória recente, desorientação, dificuldade de concentração e desequilíbrio são efeitos tardios da doença. Ainda na fase inicial, o estudo envolveu 185 participantes, 80% apresentaram dificuldades em realizar atividades comuns do dia a dia, déficit no raciocínio e problema na compreensão.

 

Com o Coalizão VII, os médicos e pesquisadores pretendem entender o cenário pós-covid e criar estratégias para o tratamento e reabilitação dos pacientes. O diretor geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, acredita que o conhecimento sobre a “Covid-longa” ou “Covid-prolongada”, ainda está no início e deve se prolongar por alguns anos. Tedros Ghebreyesus também defende que essas informações devem chegar à comunidade, como forma de enfrentamento mais rápido das consequências do coronavírus. 

Da recuperação a reeducação

Os cuidados intensivos com os pacientes começam na própria internação. A fisioterapeuta e professora do curso de Fisioterapia da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), Daniela Virote Kassick Müller, relata que os pacientes internados demandam cuidados desde as lacerações na pele, ocasionados pelo grande tempo em repouso, quanto a manutenção dos movimentos, articulações e funções musculares. Daniela Müller explica que aqueles que requerem de ventilação mecânica, uma vez que estão com a saturação de oxigênio baixa e precisam de ajuda para respirar, perdem a agilidade da musculatura diafragmática, que é a responsável pela respiração, deixando, assim, sequelas e os tornando pacientes tempo-dependentes. Ou seja, quanto mais tempo intubados, mas perdem a capacidade da musculatura e ficam cada vez mais dependentes da máquina. A incidência de intubação é maior para idosos porque depois dos 25 aos 30 anos de idade, há o envelhecimento natural do corpo, chamada de Sarcopenia, o processo progressivo de perda de massa muscular, incluindo do diafragma e pulmão, tornando os idosos as vítimas quase sempre fatais da doença, por terem uma fragilidade muscular mais intensa, explica a professora e fisioterapeuta.

Para Müller, o período estendido na ventilação mecânica torna as estáticas de sequelas mais cruéis e significativas. Da reeducação do diafragma à funcionalidade do corpo é o objetivo principal para os recuperados da COVID-19, “é importante dar seguimento ao tratamento para recuperar a função prévia. Dependendo da gravidade, terá paciente que precisará de acompanhamento diário, paciente com acompanhamento de duas, três vezes na semana e mais orientações. Alguns vão precisar de fisioterapia, outros de fonoaudiólogo, outros de terapeuta ocupacional. Mas de fato é importante ter o acompanhamento posterior para que se possa recuperar sua funcionalidade e, mais importante, sua independência funcional. Pacientes que ficaram com alguma sequela devem ter acompanhamento”, reitera Daniela Müller.

Esta reportagem foi originalmente produzida para o site e mídias sociais do Projeto de Ensino i4 Plataforma de Notícias – Agência Experimental do curso de Jornalismo, campus São Borja. Tuãne Araújo é repórter voluntária no projeto.

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NECROPOLÍTICA: QUEM DECIDE QUE VIDAS SÃO VIVÍVEIS E QUE VIDAS SÃO MATÁVEIS?

Marcos Vinicius da Silva Goulart

Que vidas são vivíveis e que vidas são matáveis? Aceitaríamos que o Estado, tal como conhecemos desde o fim da modernidade, ousasse fazer esse tipo de questionamento para pautar suas ações de governo? Esses questionamentos vão direto àquilo que um Estado não poderia enunciar, e a simples hipótese de tais perguntas colocam-no em uma dimensão política estranha, contraditória e brutal. Contudo, as experiências contemporâneas de controle de pessoas, vigilância e terror em campos de refugiados em várias partes do mundo; em centros de detenção de imigrantes nos Estados Unidos e a ocupação de territórios palestinos por Israel indicariam um modo de controle de pessoas e territórios pautados pela inferiorização de sujeitos em relação uns aos outros. Esses sujeitos, sob o jugo do Estado, se tornariam pessoas sem cidadania, se tornariam desprezíveis, se tornariam matáveis. 

Sujeitos matáveis e vidas não vivíveis! É sobre isso que trata a necropolítica, conceito elaborado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe para explicar as novas formas de governo contemporâneo. No Brasil, esse conceito tem sido muito utilizado por pesquisadores que lidam com a temática do racismo. Eles veem na necropolítica uma chave de leitura para explicar o extermínio da população negra no Brasil, por exemplo. Mbembe, portanto, apresenta-nos um conceito fundamental para compreendermos o desenvolvimento das formas de poder que se materializam num Estado que, com o capitalismo na sua forma neoliberal, encontram a sintonia perfeita, ao produzirem aquilo que Wendy Brown (2018) chamou de cidadania sacrificial, que produz sujeitos sacrificáveis pelo bem do desenvolvimento econômico de um país. Há uma convergência entre esse conceito e a necropolítica, porém, embora tenha o citado, o foco por ora é na necropolítica.

O que é necropolítica? 

Em 2 de março de 1757, Damiens era submetido a um suplício terrível por cometer um parricídio. Seu sofrimento, em praça pública, descrito em detalhes por Michel Foucault  (2007), materializava a soberania, a produção da morte por meio da punição pública e espetacular, a completa submissão de um indivíduo ao poder de um soberano. Esse tipo de poder é aquele teorizado pelas filosofias políticas do contrato social, que é cedido a um soberano como uma espécie de direito originário, justamente para a manutenção da ordem e do próprio Estado. Thomas Hobbes é um dos teóricos da soberania e é dele a hipótese de que sem Estado viveríamos uma guerra de todos contra todos. A manutenção do poder do soberano, nesse sentido, implica sua própria sobrevivência e seus súditos teriam o dever de zelar por isso. Esses súditos estão sujeitos à morte caso suas condutas não condigam com os desejos do soberano, que teria o poder de fazer morrer ou deixar viver (FOUCAULT, 2010).

Entre os séculos XVII e XVIII, os mecanismos do poder passam a agir sobre o corpo individual, mas não para matá-lo, e sim, para torná-lo adestrável e produtivo. Tem-se o interesse crescente na vigilância, na prisão, na escolarização centrada no disciplinamento, por conseguinte, na formação de corpos dóceis (FOUCAULT, 2007). Contudo, surge algo novo a partir de meados do século XVIII: os mecanismos do poder começam a se centrar no corpo espécie, no corpo humano na medida em que ele é parte de uma população. Ademais, não podemos desconsiderar que esse novo poder sobre a vida vai operar entre a primeira e a segunda Revolução Industrial, nas quais os modos de produção foram completamente alterados, exigindo cada vez mais sujeitos úteis para o novo mundo econômico, isto é, vidas vivíveis. Sobre a vida opera um biopoder centrado no corpo individual, porém, na exata medida em que ele faz parte de uma população; daí biopolítica – uma tecnologia de poder centrada no humano como espécie, como um ser biologicamente conhecido e a se conhecer. Temos um Estado que crescentemente se preocupa com taxas de natalidade, taxas de mortalidade, campanhas de saúde pública e, mais adiante, com o crescimento econômico e com a produção em larga escala de capital humano. Ou seja, nos meandros da biopolítica o que se opera é um fazer viver ou deixar morrer (FOUCAULT, 2010).

Explicar a emergência do conceito de biopolítica em Foucault é fundamental para compreendermos o conceito de necropolítica em Mbembe, já que ele usará essa noção conjugada com outras, a saber, estado de exceção e soberania para a sua elaboração teórica. Antes de iniciar essa explicação, gostaria de ressaltar que vou tratar biopoder e biopolítica, assim como necropoder e necropolítica como sinônimos, mesmo sabendo que há diferenças precisas entre eles, mas, isso não atrapalhará a compreensão introdutória dos mesmos. Em primeiro lugar, Mbembe (2016) retoma a discussão sobre a noção de soberania, mas sob outro prisma que não aquele dos contratualistas do século XVII e XVIII, como já citei. O filósofo camaronês não vai se concentrar no aspecto racional e originário do Estado, no qual sujeitos, num ato racional, teriam fundado a soberania para garantir sua própria segurança e seus próprios direitos. Sua preocupação será com uma soberania que operaria através da “[…] instrumentalização generalizada da existência humana e a destruição material de corpos humanos e populações” (MBEMBE, 2016, p. 125). Ou seja, ele está preocupado com aspectos menos abstratos: a vida e a morte.

Mbembe vai além de Foucault ao demonstrar que a noção de biopolítica é insuficiente para descrever as formas contemporâneas de subjugação da vida ao poder da morte. No entanto, a relação que Foucault faz entre racismo e biopoder é essencial para entendermos a constituição dos Estados a partir do século XVIII, ainda mais, considerando que o Estado Nazista, conjugando racismo e biopoder, se utiliza do poder de morte, o discurso da raça ariana e do terror como seu agente mobilizador. Ou seja, o nazismo é um paradigma de Estado Biopolítico. Mbembe, de outro modo, vê limitações nessa leitura. Para ele, a emergência da biopolítica ocorre na constituição dos Estados Modernos, por volta do século XVI, com a escravidão e as invasões coloniais, que ocorreram na África e no chamado Novo Mundo, as Américas. É exatamente neste ponto que Mbembe se afasta de Foucault. Sei que o debate acerca do biopoder entre Foucault e Mbembe poderia ser abordado em suas minúcias, mas não é esse o meu interesse aqui, já que o caráter deste texto é introdutório.

O que podemos concluir a partir do debate apresentado acima? Podemos deduzir que a política de produção de morte, o deixar morrer, que é parte do biopoder e da soberania, tem o racismo como parte fundamental. Ou seja, falar em necropolítica é falar em racismo, já que desde o período colonial vem se produzindo um poder de matar, tornando escravos pessoas africanas e nativos das Américas, que deveriam ser mantidos vivos apenas na medida em que fossem produtivos para o sistema colonial. A partir daqui, estamos estritamente no campo da necropolítica, mas, ainda falta um elemento: a ideia de Estado de Exceção. 

Agamben (2004) afirma que o Estado de Exceção é um paradigma de governo na contemporaneidade. Isso significa que aquela figura do direito utilizada em situações pontuais, que representassem perigo para um Estado, se tornou a regra. O soberano, para Schmitt, era aquele que poderia decidir sobre o Estado de Exceção, mas, ao que parece, se voltarmos para Agamben, podemos dizer que já não está em jogo uma mera decisão pontual, mas uma forma de governo – O Estado de Exceção é permanente, a suspensão da ordem jurídica é uma tecnologia de governo . Nele, parcelas da população tem seus direitos violados, não são sequer considerados humanos. O campo de concentração nazista, por exemplo, é um espaço que se abre quando o Estado de Exceção se torna regra (AGAMBEN, 2002). Mbembe, contudo, vai transpor essa figura do campo para o terror e a ocupação colonial. É assim que o conceito de necropoder se ampara no conceito de exceção, de soberania e biopoder. Assim como para Foucault o nazismo era um paradigma do biopoder, para Mbembe, a ocupação colonial contemporânea da Palestina é um paradigma do necropoder. Frantz Fanon, para Mbembe, exporá um exemplo do necropoder agindo na espacialidade da ocupação colonial:

A cidade do colonizado […] é um lugar mal-afamado, povoado de homens mal-afamados. Aí se nasce não importa onde, não importa como. Morre-se não importa onde, não importa de quê. É um mundo sem intervalos, onde os homens estão uns sobre os outros, as casas umas sobre as outras. A cidade do colonizado é uma cidade faminta, faminta de pão, de carne, de sapatos, de carvão, de luz. (FANON, 1968, p. 29).

Qualquer semelhança com a nossa experiência cotidiana não é mera coincidência e é aqui que o conceito de necropolítica encontra relação com o que vem ocorrendo no Brasil. No fundo, estamos falando de um conceito que demonstra como o Estado adota uma política de morte, ao tratar indivíduos como os povos objetos do processo colonizador apresentado por Fanon. Esse sujeito objeto do processo colonizador, transpondo para a nossa realidade, é o menino negro na favela que “desaparece” em uma ação policial; é o morador de favela desassistido pelo poder público; os indígenas expostos aos garimpeiros, desmatadores e grileiros sem nenhum amparo do Estado; é o pobre que se vê obrigado a trabalhar, arriscando a própria vida, diante de um vírus mortal sem qualquer amparo econômico. Enfim, o que seria necropolítica? O poder do Estado, envolvo em sua soberania, de produzir e regular “sujeitos indesejados”, sujeitos em que o deixar morrer não é um efeito colateral da política, mas, uma estratégia para a manutenção do próprio poder do Estado. Necropolíticas são ações de eliminação e destruição de sujeitos considerados pelo Estado, como matáveis – não há dignidade humana.

Necroliberalismo e as novas formas do poder de matar

A necropolítica nos ajuda a pensar o racismo estrutural; as incursões da morte feitas pela política militar em favelas do Brasil e a morte de jovens negros por agentes do Estado. Sobre esse tema, há bastante discussão e pode-se dizer que o conceito de Mbembe é fundamental para elucidar essas práticas de produção de sujeitos matáveis. Contudo, queria finalizar este texto, pontuando algumas questões ligadas à economia. Mbembe (2020), recentemente, utilizou o termo “necroliberalismo” para se referir a lógica de sacrifício presente nos discursos econômicos atuais e que ouvimos muito no Brasil atual. Necroliberalismo é uma variação da necropolítica e indica que o neoliberalismo é fundamentalmente uma política da morte. Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro, ao criticar a política de isolamento social de governadores, afirmou que os governadores e prefeitos querem matar o povo de fome com suas políticas de “lockdown” (MENDONÇA, 2021). Ora, sem uma política eficiente de auxílio financeiro para os mais pobres, o presidente sugere que as pessoas têm duas opções: arriscar a própria vida diante do coronavírus ou morrer de fome em casa. Ou seja, a única saída para os mais pobres, nesse caso, as vidas matáveis, é submeter-se ao risco da morte.

O neoliberalismo enxerga todos os sujeitos como capital humano, como agentes de mercado, isto é, suas próprias vidas passam sempre pelo prisma econômico, temos uma economicização da sociedade (BROWN, 2018). Todos nós somos responsáveis pelo desenvolvimento do país, logo, teríamos o dever moral de se sacrificar em prol da economia – e esse tipo de discurso se tornou regra desde 2019. O neoliberalismo, isto é, o necroliberalismo, tem em si essa dimensão de sacrifício de vidas, nele o trabalhador tem o trabalho precarizado, tem sua aposentadoria retirada, seu bem-estar se torna supérfluo para o mercado e deve ser eliminado. Necropolítica é uma política de produção de sujeitos matáveis, cidadanias sacrificiais, vidas com menos valor que outras. Como afirma Mbembe (2020, n.p.) na entrevista que mencionei, “esse sistema [o necroliberalismo] sempre operou com um aparato de cálculo. A ideia de que alguém vale mais do que os outros. Quem não tem valor pode ser descartado”. Agora, a pergunta do início do texto pode ser respondida: é o Estado Necropolítico que decide que vidas são vivíveis e que vidas são matáveis.

Marcos Vinicius da Silva Goulart é Professor Orientador Educacional (SMED/São Borja). Doutor em Educação. Mestre em Psicologia Social e Institucional. Licenciado em Filosofia. Contato: mvinicius.goulart@gmail.com.

Referências

AGAMBEN, G. Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua I. Belo Horizonte: UFMG, 2002.
BROWN, W. Cidadania Sacrificial: Neoliberalismo, capital humano e políticas de austeridade. Rio de Janeiro: Zazie Edições, 2018.
FANON, F. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
FOUCAULT, M. Vigiar e Punir: o nascimento da prisão. 34. ed. Petrópolis: Vozes, 2007.
FOUCAULT, M. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
MBEMBE, A. Necropolítica. Arte & Ensaios, n. 32, p. 123–151, dez. 2016.
MBEMBE, A. Pandemia democratizou poder de matar, diz autor da teoria da “necropolítica”. [entrevista concedida a] Diogo Bercito. Folha de São Paulo, p. n.p., 30 mar. 2020.
MENDONÇA, A. Bolsonaro volta a criticar lockdown: “Pessoal vai morrer de fome?” Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2021/03/03/interna_politica,1242858/bolsonaro-volta-a-criticar-lockdown-pessoal-vai-morrer-de-fome.shtml. Acesso em: 4 abr. 2021.

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FALAMOS… FALIMOS… FALHAMOS!

Por José Martins Alegre Júnior

A sociedade brasileira paga caro por suas escolhas. Necessariamente repete o mesmo erro quando exerce seu sufrágio. Falamos num passado histórico não muito remoto quando saímos das mazelas da famigerada ditadura. Falamos alto e em bom tom que daríamos novo rumo a nossa política social. Acontece que nossa estrutura cultural está arraigada sempre num espírito ditatorial, onde por mais que forcemos arrebentar as amarras de um poder despótico a sociedade retorna ao ponto de partida acreditando que o poder castrense é a melhor opção, bom aí é pagar pra ver. Lamentavelmente o povo brasileiro não conhece sua história, se assim fosse, jamais dispensaria em suas escolhas cidadãos técnicos que poderiam dar um norte mais consistente aos anseios de todos principalmente aos mais necessitados, digo aqueles que estão a mercê de um benefício para alimentar sua família com apenas R$ 250,00, que nem chega a cobrir a metade do consumo diário de uma família com 3 componentes.

Não existe na história do mundo situação governamental com esse perfil que viesse  sufragar os anseios de uma sociedade.

Os poderes da nação concentrados “atiram a batata quente” um para o colo do outro. TODOS FALAM, SE PROJETAM POLITICAMENTE, utilizando a torpeza em proveito próprio, como estivessem concorrendo para ver quem grita mais falácias, o que deixa transparecer nas entrelinhas de que  a sociedade só entende  se assim o for.

O resultado é esse aí: FALIMOS, quando o poder que dá o norte da sociedade equivoca-se diuturnamente nas ações ou omissões que pratica. Pecou o governo quando fez ouvidos moucos a pandemia que tomou conta do mundo e, principalmente em nosso país que está colapsado, por entender que uma “gripezinha” poderia ser tratada com medicamentos simples e baratos, nos remetendo a países que possuíam e ainda possuem regime político ditatorial.

A procrastinação de decisões na área da saúde (que até então era o braço forte do Brasil) na compra de vacinas foi fatal para a incerteza de até quando vamos conseguir nos manter vivos?

Aliado a toda essa situação odiosa, os incentivos do governo federal para dispensar o uso de máscara, combater o vírus precocemente com remédios que não são indicados por especialistas na área de infectologia, bem como a falta de insumos básicos para tratamento de pessoas e o pior, pasmem!! A falta de oxigênio para evitar que pessoas venham morrer sufocadas demonstra a falência da saúde no Brasil.

Isso sem mencionar as inúmeras ações jurídicas travadas nos tribunais em todo o Brasil, inclusive nas cortes Superior e Suprema, porém, ATÉ HOJE TODAS SEM SOLUÇÃO.

Lamentavelmente PROJETO DE NAÇÃO NÃO SE TEM. Melhor, se quer tem-se projeto algum a não ser abrir as valas para colocar os corpos de vítimas, mutilando as famílias brasileiras. 

Falhamos quando acertadamente erramos na escolha que fizemos. Falharam os poderes constituídos da federação, quando todos fazem vistas grossas ao pavor estarrecedor da COVID que assola o país.

É de se notar que, quando o líder do país ignora tal situação odiosa que nos assola, criando interpretações constitucionais a seu favor, atribuindo “culpa” a governadores  e prefeitos por ações e omissões que pratica, desimportando com a saúde dos brasileiros,  onde os presidentes do Senado e Câmara Federal que são aliados do presidente “concordam” com tais atitudes, as quais são refutadas mesmo com orientações técnicas de especialistas demonstra que inexoravelmente FALHAMOS.

José Martins Alegre Júnior (OAB/RS: 60684) 
Graduado pela Universidade PUCRS – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul- Campus Uruguaiana-RS
Pós-Graduado em Direito do Trabalho pela Universidade PUCRS – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul- Porto Alegre -RS 

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CHAMA DA TRADIÇÃO. Itaqui, um berço do Tradicionalismo, estará em breve disponível para leitores

Neste mês de abril, será lançado o livro “Chama da tradição: Itaqui, um berço do tradicionalismo”, que aborda a importância do Movimento Tradicionalista de Itaqui, a relevância cultural de sua Semana Farroupilha e destaca através de biografias, alguns nomes importantes deste contexto, focado em valorizar os itaquienses que sempre estiveram na linha de frente deste movimento cultural.

O autor Márcio Escalante de Barros justifica a frase no título que se referindo à cidade de Itaqui, como “um berço do tradicionalismo”, com pelo menos dez fatos concretos, que foram utilizados como apelos culturais no projeto “Itaqui Tchê Espera”, que possibilitou o município da Fronteira Oeste a se tornar sede da 63ª Distribuição da Chama Crioula do Estado em 2010.

Itaqui, está localizado na Fronteira Oeste do Estado do Rio Grande do Sul, e  colaborou diretamente para o surgimento e fortalecimento do Movimento Tradicionalista Gaúcho, que mesmo tendo o seu marco inicial com o Piquete da Tradição ou Grupo dos Oito em 1947, há outros eventos importantes, como a fundação do primeiro CTG em 1948 e a realização do primeiro Congresso Tradicionalista em 1954, todos esses acontecimentos tiveram a presença de ilustres itaquienses, contribuindo diretamente para a realização desses eventos.

Tais eventos vão contribuir diretamente para a formação do MTG, que teve sua fundação jurídica reconhecida em 28 de outubro de 1966, nesse período já tínhamos em Itaqui, dois CTGs fundados (CTG Bento Gonçalves e CTG Rincão da Cruz), e essa contribuição continua até os dias atuais, valorizando os feitos do pioneiro Orlando Jorge Degrazia, membro do Grupo dos Oito e Manoelito de Ornellas, presidente do primeiro Congresso Tradicionalista.

Além desses personagens, ímpares da história do Movimento, Itaqui ainda vai contribuir na área da música e poesia, com a presença de inúmeros artistas que ao passar do tempo, vão ajudar a fortalecer e propagar essa cultura regionalista, declamando e cantando versos que vão traduzir a vida do homem do campo e suas lides campeiras, nossas paisagens, este legado histórico e cultural.

Na obra, que teve uma ampla pesquisa, são citados os dez motivos que o autor justifica, fazendo crer que Itaqui, é sim um dos grandes berços do tradicionalismo, sem desmerecer as demais cidades que têm seus apelos culturais, suas justificativas e sua história. 

Para o pesquisador/autor Márcio Escalante de Barros, Itaqui é um berço do tradicionalismo, “porque aqui está a essência desse grandioso movimento organizado, que sempre teve como princípio básico o legado de heróis republicanos de liberdade, igualdade e humanidade. Norteado na sua plenitude no que rege a “Carta de Princípios”, por isso permanece sempre ativo, aquecido por uma chama que está permanentemente acesa nos galpões de nossas estâncias e especialmente no coração de cada itaquiense”.

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Assassino na casa (2019), de Fábio Vermelho

por Walker Douglas Pincerati.


Assassino na casa
não é uma estória para crianças, nem pra se ler a meia noite…. 

É brutal – impudente – indecente! 

Fábio Vermelho, com seu traço inconfundível, conta em sua zine, uma HQ, uma história de uma série de assassinatos que não deixam vestígios. Nesta história, a jovem e voluptuosa Lorraine cuida por uma noite de Tim, um garoto que fica em casa porque os pais saíram. A babá, porém, bota o guri para dormir cedo e deixa Adam, seu namorado, entrar para fumar um baseado e escutar umas músicas… Mas o assassino está na casa e mata Adam rápido e implacavelmente com um puta golpe de faca bem no meio da testa.

Se pintou a curiosidade para saber e ver como acontece esse assassinato, vale a pena adquirir a zine.

O Fábio Vermelho é o roteirista e o desenhista de suas próprias histórias. É ilustrador e cartunista. Mais importante: é um dos nossos artistas. 

Recentemente publicou pela Editora Veneta Eu Fui um Garoto Gorila. 

Tem HQs desenhadas e narradas tanto em português quanto em inglês em sua lojinha: www.lojinhadaweirdworks.iluria.com, onde também está à venda Assassino na casa.

 

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